Festival Interativo de Música e Arquitetura homenageia o Teatro Alberto Maranhão com concerto gratuito neste domingo (24)

Depois de homenagear diferentes monumentos arquitetônicos no estado do Rio de Janeiro (1ª edição) e contemplar importantes palácios e museus Brasil afora (2ª edição), o FIMA – Festival Interativo de Música e Arquitetura, em sua terceira edição, se dedica a homenagear os teatros históricos do Brasil, promovendo uma convergência lúdica entre música e arquitetura em alguns dos mais importantes templos da arte e da cultura brasileira. Iniciada em outubro, a terceira edição já percorreu os estados do Pernambuco, Amazonas, Rio de Janeiro, Paraíba, Pará e Minas Gerais (Ouro Preto, Sabará e Juiz de Fora) e chega, agora, em Natal, encerrando esta longa jornada de homenagens. Com patrocínio do Instituto Cultural Vale por meio da Lei de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet, Governo Federal – União e Reconstrução, o FIMA oferece concertos presenciais e virtuais, podcast, websérie, conteúdos interativos e todas as apresentações têm entrada gratuita

Em Natal, o FIMA irá homenagear, neste domingo, dia 24 de março, um ícone arquitetônico da cidade, o Teatro Alberto Maranhão, edifício imponente no coração do bairro boêmio da Ribeira, um prédio de arquitetura eclética, símbolo da cultura do Rio Grande do Norte, que completa exatos 120 anos de trajetória artística. Um trio de virtuosos locais será guia desta viagem pelo tempo e espaço do homenageado teatro: dois potiguares, a soprano Alzeny Nelo e o pianista Durval Cesetti, se juntam ao carioca residente de Natal e professor da UFRN, Fabio Presgrave, trazendo um diálogo inédito entre a música, a arquitetura e a história deste emblemático teatro. Já os comentários sobre esta casa ficarão a cargo do dramaturgo Racine Santos e da professora de História do Teatro, da UFRN, Monize Moura, responsável pela preservação do acervo documental do Teatro Alberto Maranhão.

O programa em diálogo com a história do Teatro Alberto Maranhão

O concerto se inicia celebrando o momento de construção do então Teatro Carlos Gomes, iniciada em 1898, apresentando uma das canções mais conhecidas e amadas de Gomes, fora do âmbito de suas óperas, a modinha “Quem Sabe?“, composta por ele aos 23 anos de idade, em 1859, com letra do jornalista Bittencourt Sampaio.

Para evocar a chegada do Art Nouveau na remodelação deste teatro promovida pelo então Governador Alberto Maranhão, o programa segue com “Elegie“, de Jules Massenet e arranjo de Maike Kornhartque. Com letra de Louis Gallet, a música foi posteriormente adaptada para diversas formações. Nascido em 1842 e falecido em 1912, Jules Massenet foi um dos compositores mais prolíficos e populares da França no final do século XIX e início do século XX, sendo conhecido principalmente por suas óperas, como “Manon” e “Werther”.

Em seguida, o programa joga luz sobre a forte presença do cinema neste teatro – foi nele que aconteceram as primeiras exibições de filmes no Rio Grande do Norte, desde 1906. A partir de 1911, foram construídos, nos bairros da Ribeira, Cidade Alta e Alecrim, prédios de uso exclusivo para cinematografia. Desta forma, o trio interpreta “Royal Cinema“, uma valsa de Tonheca Dantas, inspirada no charme e romantismo do Cinema Royal do bairro de Cidade Alta, inaugurado em Natal no ano de 1913. Tonheça Dantas atuava como clarinetista nesta casa de projeção e fez esta música a pedido do proprietário do cinema, que desejava uma melodia que enriquecesse as aberturas das suas sessões cinematográficas.

Durante o segundo Governo de Alberto Maranhão, o teatro fechou para a realização de uma grande reforma, sendo reinaugurado pela “Gran-Compañía Española de Zarzuela, Òpera y Opereta Pablo López”, em 19 de julho de 1912. Para lembrar desse momento histórico, o programa segue com “De España vengoda Zarzuela “El niño judío”, de Pablo Luna. Nesta zarzuela, destaca-se toda a riqueza deste gênero lírico-dramático espanhol, que capta de forma brilhante a essência da cultura espanhola.

O concerto prossegue com duas obras de um Belenense pra lá de Potiguar, Oriano de Almeida. Serão apresentadas “Embalo de Saudade” e “Meu Baraio”, reconhecendo a enorme contribuição deste compositor e pianista para o Rio Grande do Norte e para o Teatro Alberto Maranhão. Sua relação com esta casa se estendeu desde sua infância até sua maturidade profissional, deixando um legado que atravessou décadas. Desde seu primeiro recital neste teatro como solista aos 14 anos, em 1936, Oriano solidificou sua posição como uma força dominante na cena musical deste estado, bem como do Brasil e do mundo. 

Outro grande compositor, nascido em Natal em 1928, foi Mário Tavares e dele será executada a obra “Ballada“. Como violoncelista, foi um dos principais intérpretes da obra orquestral de Villa-Lobos, realizando também várias primeiras audições de importantes autores brasileiros. Compositor e maestro titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, foi membro honorário de várias orquestras sinfônicas estrangeiras e recebeu inúmeros prêmios de composição. Também foi fundador da Associação Brasileira de Violoncelistas e um membro ativo da Academia Brasileira de Música.

Mais um personagem marcante da história musical do Rio Grande do Norte, que marcou presença neste histórico teatro, foi o natalense Aldo Simões Parisot, um dos mais renomados violoncelistas e professores de música do século XX.  Sua história é interligada também com a de Thomaz Babini, um violoncelista italiano que, após chegar ao Brasil e colaborar com Villa-Lobos, radicou-se em Natal, influenciando diretamente a tradição musical do estado. Babini, ao formar uma escola de violoncelistas e dirigir a escola de música do então Teatro Carlos Gomes (hoje Teatro Alberto Maranhão), lançou as bases para que Parisot e outros músicos locais se desenvolvessem, destacando a importância da música instrumental e, mais especificamente, do violoncelo na identidade cultural potiguar. Aldo Parisot não apenas perpetuou a tradição iniciada por Babini, mas também a elevou a um patamar global, fazendo com que o violoncelo se tornasse um símbolo de excelência e inovação musical do Rio Grande do Norte para o mundo. Faleceu em 29 de dezembro de 2018, aos 100 anos, deixando um legado inestimável para a música clássica e a cultura musical do Rio Grande do Norte. Sua morte ocorreu enquanto ouvia a Ária (Cantilena) da “Bachianas Brasileiras nº 5” de Villa-Lobos, que será apresentada na voz de Alzeny Nelo, ressaltando até o fim sua conexão profunda com a música brasileira e, em particular, com a obra de Villa-Lobos, com quem também colaborou. 

Em 1957, após o teatro receber o nome de Alberto Maranhão, a edificação passou novamente por uma grande restauração, sendo reinaugurada em 1960. Foi também no início dos anos 60 que se criou a Divisão de Balé neste teatro.  Seus bailarinos participavam ativamente das produções desta casa, como por exemplo na emblemática opereta “Praieira de Meus Amores”, encenada pelo Ginásio de Arte Dramática em 1967. Com texto de Jaime dos Guimarães Wanderley e músicas de Garibaldi Romano, a obra também apresentava a famosa Serenata do Pescador de Eduardo Medeiros e Othoniel Menezes. Originalmente intitulada “Serenata de Pescador” – ou “Praieira”, como ficou conhecida popularmente – havia sido escrita para saudar os pescadores natalenses que, em três barcos a vela, viajaram de Natal ao Rio de Janeiro, dentro das comemorações do Centenário da Independência, em 1922. Othoniel Menezes, contava que uma das maiores felicidades de sua vida era ouvir, nas madrugadas natalenses, o povo cantando sua “Praieira” em serenatas pelas ruas da cidade. Por isso, o concerto se encerra com esta obra que se tornou um patrimônio de Natal pelo decreto-lei nº 12, de 22 de novembro de 1971, do governo municipal de Natal, quando a mesma foi considerada o “Hino da Cidade”. Da mesma forma, em 27 de julho de 1985 o Teatro Alberto Maranhão foi tombado pelo IPHAN e é hoje reconhecido como um dos mais importantes patrimônios culturais da cidade de Natal.

SERVIÇO

Dia 24 de Março de 2024

Local: Teatro Alberto Maranhão – Natal 

Horário: 17h

Ingresso gratuito

Distribuição de ingressos das 14h às 17h na semana que antecede o espetáculo.  No dia do concerto, na própria bilheteria do teatro.

Solistas:

Alzeny Nelo, soprano

Fabio Presgrave, violoncelo

Durval Cesetti, piano

Palestrantes:

Monize Moura, atriz e historiadora

Racine Santos, dramaturgo

PROGRAMA

  • ANTÔNIO CARLOS GOMES (1836–1896)

Quem Sabe?!…

Duração: 8 minutos

  • JULES MASSENET (1842–1912)

Elegie

Arranjo por Maik Kronhardt

Duração: 3 minutos

  • TONHECA DANTAS (1871–1940)

Royal Cinema

Duração: 4 minutos

  • PABLO LUNA (1879–1942)

De España Vengo (El Niño Judío)

Duração: 6 minutos 

  • ORIANO DE ALMEIDA (1914–2004)

Embalo de Saudade

Duração: 4 minutos

Meu Baraio

Duração: 3 minutos

  • MÁRIO TAVARES (1928–2003)

Ballada

Duração: 3 minutos

  • EDUARDO MEDEIROS (Data de nascimento e morte não disponíveis) / OTHONIEL MENEZES (1895–1969)

Serenata do Pescador

Duração: 6 minutos

  • HEITOR VILLA-LOBOS (1887–1959)

Bachianas Brasileiras No. 5 – Ária (Cantilena)

Duração: 6 minutos

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